Zé Maria Coelho Sultanum governa Fernando de Noronha pela mesma lei que estrutura toda a sua existência: aceleração constante, nenhuma marcha ré. Aos sessenta e nove anos, o empresário pernambucano erigiu no arquipélago uma obra que poucos conseguiriam sustentar em terra firme, onde desistir seria mais fácil. Antes de Noronha, era homem de varejo e atacado, com a lógica do comércio já gravada no instinto. Chegou para um fim de semana e ficou quatro décadas: o que era passagem converteu-se em permanência; o que era lazer, num ecossistema de abastecimento que hoje sustenta aproximadamente quinhentas famílias da ilha.

A engrenagem desse ecossistema foi erguida pela necessidade, peça por peça: distribuidora, atacado, armazém de materiais, cozinha industrial, supermercado, restaurantes, barcos de carga e pesca. Cada empresa nasceu para resolver o gargalo que ameaçava a anterior. A mais célebre dessas soluções tem nome de conflito: a Guerra do Gelo. Quando um fornecedor local tentou impor preços extorsivos, certo de que a insularidade encurralava o comprador, Zé Maria não negociou nem lamentou: comprou um barco, trouxe o gelo do continente com qualidade superior e vendeu pela metade do preço. O obstáculo virou rota; a rota, autonomia.

Essa recusa em aceitar a impossibilidade atravessou catástrofes reais: barcos afundados, patrimônios consumidos em incêndios, o mar reclamando o que julgava seu. A cada perda, a resposta foi expansão, não recuo. "Em vez de dar ré, acelerar", resume, com a brevidade de quem a testou muitas vezes. O critério que adota para avaliar qualquer conquista é direto: "É você atingir o seu objetivo sem prejudicar ninguém." Sem subjugar, sem predar, sem excluir: é o contra-modelo que ele encarna em cada decisão.

O legado de Zé Maria Sultanum não cabe em balanços. Está nas quinhentas mesas postas por dia, no futuro que ele trouxe a uma comunidade insular e no aforismo que cunhou para resumir o que aprendeu: "A simplicidade é a excelência da vaidade." É essa convicção que faz dele o único tipo de pioneiro que vale a pena ser: o que avança sem destruir e deixa o arquipélago diferente do que o encontrou.