Vicente Silva transforma resíduo em rosto. Nasceu em Jaboatão dos Guararapes e recebeu do pai, Adejal Vicente da Silva, uma sentença que soou como alforria: "Quem não gosta de estudar tem que ter uma profissão." O menino aceitou. Aos sete anos, moldava barro à sombra do legado de Mestre Vitalino. Aos quarenta e seis, depois de anos servindo o mercado das festas infantis com heróis e princesas descartáveis, deixou o universo do Mickey e da Minnie para esculpir o rosto de Ariano Suassuna, a virada mais honesta de sua vida.

Autodidata por necessidade e por escolha, inventou sua própria massa: pó de serra, massa acrílica, cola branca e gesso cola. Pega o resíduo que a marcenaria descarta e transforma em volume, em expressão, em permanência. Aprendeu esse gesto com a mãe, Maria Helena do Nascimento Silva, que alimentava seis filhos com a inteligência de quem sabe multiplicar o pouco: o aroma do sacrifício, a panela que unia, a fidelidade inabalável ao lar.

Esse aprendizado conquistou o Centro de Artesanato de Pernambuco, a Fenearte, os salões de Arte Religiosa e Arte Popular, e a distinção Franz Krajcberg, uma das honrarias mais respeitadas nas artes plásticas do país. Suas caricoesculturas de Ariano Suassuna, com rugas modeladas como devoção e devoção modelada como ruga, não vendem bonecos: oferecem encontros.

O lar sempre foi o centro de gravidade que permitiu ao artista voar. Há trinta e quatro anos, Ieda Cristina de Lyra Silva sustenta cada recomeço com silêncio e firmeza. Os filhos Caio Winston de Lyra Silva e Marília Helena de Lyra Silva seguiram os caminhos do caráter ensinado em casa. Vicente Silva prova que o talento verdadeiro não se aluga, não se descarta: molda, pressiona, espera, e o que era pó vira rosto.