Tatiane Vicente Pereira entende o Direito Criminal de dentro para fora: viveu, antes de estudá-lo, o que acontece quando ele falha. Filha de Creusa Alves, trabalhadora doméstica, e a primeira de sua família a ser aprovada no Exame da Ordem, ela compreendeu que a aprovação naquela lista não era um acontecimento individual: era o saldo acumulado de gerações.

O ponto de inflexão veio cedo, ainda no início da advocacia. Quando assinou o alvará que libertou uma mulher negra presa sem justa causa, compreendeu, na prática, o que significa transformar uma vida com o próprio trabalho. Naquele papel havia mais do que um ato processual: havia a evidência de que a lei, exercida com presença e consciência racial no território, pode devolver o que o sistema insiste em negar.

Esse entendimento organizou tudo o que veio depois. A advogada comanda seu escritório, atua como Superintendente Jurídica dos Direitos Humanos no município de Paulista, preside a Comissão de Igualdade Racial da OAB Paulista, desde 2022, e representa Pernambuco na Associação Nacional da Advocacia Negra (ANAN): frentes que, para ela, nunca foram atividades distintas, mas o mesmo compromisso exercido em escalas diferentes.

Seu diferencial está em advogar a partir da vivência, não apenas do código. A perspectiva negra, comunitária e territorial que traz à prática jurídica muda a leitura dos casos, muda o diálogo com as pessoas defendidas, muda a percepção do que não está escrito nos autos. Ela traduz o juridiquês para quem sempre recebeu a lei como ameaça e nunca como proteção.

Aprovada em três seleções nacionais de formação para lideranças negras, incluindo o Direito Antidiscriminatório da UFF e as Políticas sobre Drogas do IDPN, eleita Conselheira da OAB Paulista para o triênio 2025-2027 e homenageada, em 2025, durante a 19ª Caminhada dos Terreiros de Pernambuco pelo trabalho na defesa dos povos de terreiro, da liberdade religiosa e dos direitos humanos, Tatiane ocupa os espaços sem diminuir o que é para caber neles. "Não estamos apenas abrindo portas: estamos construindo novas arquiteturas", afirmou. Hoje, a advogada exerce o Direito com a nitidez de quem sabe que a justiça, quando vem de quem conhece o custo de não tê-la, deixa de ser promessa e passa a ser, concretamente, fato.