Sandra Paes Barreto decifra em um estatuto de 1982 a resposta que buscava para toda uma associação. Presidente reeleita da Associação dos Amigos da Justiça de Pernambuco (AAJUPE) para um novo biênio, ela debruçou-se sobre o texto fundador e encontrou ali, adormecida havia mais de quatro décadas, a previsão de que qualquer cidadão de Pernambuco ou do Brasil poderia tornar-se sócio contribuinte. A entidade, até então mais próxima das esposas de magistrados, não precisava de uma ideia nova: precisava de alguém disposta a ler com atenção uma ideia antiga.
A vocação nasceu longe dos gabinetes refrigerados. Ao acompanhar o marido, o magistrado Ricardo Paes Barreto, pelas comarcas do interior, a advogada aposentada encontrou nas assistências judiciárias de Lagoa dos Gatos, Sanharó e Cupira o seu verdadeiro tribunal. Ali aprendeu que a fome não espera sentença: enquanto atendia mães vindas dos sítios distantes, deixava pipoca e biscoito prontos para os filhos delas. Gesto pequeno, princípio grande.
Esse aprendizado virou método à frente da AAJUPE. Sandra opera por um binômio que repete como quem reza: visibilidade gera credibilidade, credibilidade gera recurso, recurso gera transformação. Cada cesta básica, cada bolsa de colostomia, cada kit de higiene entregue é registrado, mostrado, comprovado, porque o que não se vê não convence quem doa.
O teste maior veio de dentro do próprio corpo, com o diagnóstico de um câncer de mama. Diante da dor, ela trocou a pergunta: não “por que eu”, mas “por que não eu?”. Da doença nasceu urgência, não lamento.
É essa urgência que explica Manari. Um plano de quatrocentas cestas básicas cresceu, pela força de sua rede, até dez toneladas de mantimentos no município mais pobre do estado, e ainda coube perceber que as formandas precisavam de vestidos para comemorar a própria conquista: cento e quarenta trajes depois, a festa aconteceu.
Todo dia, antes de qualquer despacho, Sandra abre o livro de pedidos escritos à mão. Ali, um fogão pedido, uma cadeira de rodas pedida, se tornam a bússola do seu dia. Ela não julga papéis: julga necessidades e sentencia esperança. É essa a jurisprudência que Sandra Paes Barreto escreve fora dos autos, a de que ninguém deveria precisar de sorte para ter direito à dignidade.

