Marta Rocha Ramos governa uma praia como quem governa uma convicção: com presença, com firmeza, com a recusa de quem não negocia o que é sagrado. Em 1998, quando o descaso dos veranistas rasgava a Praia dos Carneiros com lanchas e detritos, ela ergueu um quiosque de palha, não como negócio, mas como sentinela. Vendia água de coco e fiscalizava o chão dos avós, Rosalvo e Maria. Da água de coco veio a cerveja; da cerveja, o aratu de Gracinha; do aratu, uma instituição que sustenta mais de 250 famílias em Tamandaré.
O Bora Bora não foi planejado em manuais: foi ditado pelo público. "O público foi quem me ensinou a ser empresária", diz Marta, em uma máxima que carrega mais gestão do que qualquer planilha poderia conter. Formada em Recursos Humanos, ela sabia que o negócio era feito de pessoas antes de ser feito de mesas e cadeiras. Ladiel, que chegou pela porteira, hoje cuida do núcleo financeiro. Outros foram, voltaram, e foram recebidos com o mesmo abraço de quem nunca fechou a porta. A comandante não preenche vagas: cultiva trajetórias, funda destinos, honra a confiança com constância.
A solidez do que ela construiu ao longo de quase três décadas repousa sobre uma recusa deliberada. Investidores externos bateram à porta; consultorias de fachada prometeram expansão; o mercado ofereceu atalhos. Marta disse não a todos. "Não sou ambiciosa. Não quero nada mais do que eu não possa", afirma, com a clareza de quem sabe que a ganância corrói o que o afeto levantou. O quintal de casa, expressão com que descreve o Bora Bora, sobreviveu porque nunca deixou de ser um quintal: vigiado, cuidado, humano.
A maior empregadora de Tamandaré, superada apenas pela prefeitura local, carrega com solenidade o peso de 250 famílias cujo sustento depende do seu gesto diário de permanecer. A trajetória desta mulher revela que a guardiã mais eficaz de um paraíso é aquela que nunca precisou de um título para se sentir responsável por ele.

