A Locomotive transforma metros quadrados em promessa antes que a primeira fundação seja lançada. Fundada em Recife, a empresa entrega o cenário virtual que antecede o cenário real: projeções em 3D, filmes e experiências imersivas que dão corpo a empreendimentos imobiliários ainda no papel. Sob a direção de Lúcio Cruz da Fonseca e Rogério Figueiredo Silva, a Locomotive converteu dezessete anos de ofício em referência nacional para incorporadoras que precisam vender o que ainda não existe. Atende clientes em todo o Brasil, com incursões pontuais no exterior, mas prefere, nas palavras da própria dupla, manter "pezinho no chão".

A origem remonta a uma empresa anterior, onde os dois se conheceram como funcionários, contratados com uma semana de diferença. Ali aprenderam o ofício, encaixaram os primeiros reveses e mediram, na pele, o custo de uma gestão inconstante: atrasos de pagamento, uma equipe competente demais para os próprios donos. O fim veio quando o dono recusou uma sociedade com a maior empresa de 3D do Brasil. A recusa foi a última gota. Enquanto Rogério e um sócio inicial já fechavam projetos por conta própria, trabalhando de casa, Lúcio insistia em salvar o que restava da empresa anterior. Quando também para ele ficou claro que não havia mais o que salvar, os três se juntaram, oficializaram o negócio em 2009 e batizaram a empresa de Locomotive, nome nascido de uma brincadeira entre amigos e de um trabalho de faculdade sobre uma locomotiva animada em 3D, feito por um colega que viria a ser funcionário da casa.

A consolidação veio por incubação e por crise. No Instituto de Tecnologia de Pernambuco (ITEP), ao lado de outras cinco empresas selecionadas, passaram dois anos aprendendo tributação e licitação, o esqueleto burocrático que sustenta qualquer negócio duradouro. A prova de fogo chegou pela conta da Odebrecht, ainda em 2012 e 2013, antes de qualquer escândalo: entregar, em uma semana, uma tripla projeção que ninguém na equipe sabia executar. A solução veio de uma ligação para os Estados Unidos e de um cabo no lugar certo, faltando duas horas para a apresentação. Anos depois, a crise imobiliária de 2015 e 2016 varreu metade das empresas do setor no Brasil e reduziu o time da Locomotive de vinte para quatro pessoas; hoje são trinta, e a empresa segue de pé.

O diferencial não está apenas na técnica, mas no tratamento. É humanizada no atendimento e humanizada no expediente: ninguém trabalha mais de oito horas, não por regra escrita, mas por escolha deliberada dos sócios. Quem sai pelo preço, volta pela confiança: são clientes que migraram para concorrentes mais baratos, viveram experiências ruins e voltaram pagando mais, prova de que a confiança não se compra, cresce ao longo de anos de entrega. A recíproca também vale: a Locomotive já dispensou clientes grandes por falta de respeito com a equipe. Cultivar isso exige processos, não apenas boa vontade, e é a combinação das duas coisas, disciplina e afeto, que mantém a rotatividade da equipe baixa a ponto de empresas de São Paulo tentarem, sem sucesso, recrutar seus funcionários.

Hoje, de olho na inteligência artificial como nova fronteira, a Locomotive já revelava, desde os óculos de realidade virtual de 2013, a vocação para chegar cedo aonde o mercado ainda hesita. Rogério se dedica a estudar as novas ferramentas para que a criatividade da equipe, e não um atalho qualquer, continue sendo o produto vendido. Sediada no Recife e reconhecida por empresas de Curitiba a São Paulo, a Locomotive prova que o Nordeste também exporta tecnologia, criatividade e credibilidade, sem depender de ninguém para provar seu valor.