Káthia Eliza Abrahamian Asfora ocupa, há décadas, o território raro de quem atravessou setores distintos sem perder a assinatura do próprio gesto. A formação veio cedo: aos dezesseis anos, nos corredores da CAVIP e da CESMEL, empresas de seu pai, Teófilo Sales Asfora, ela aprendeu que cada papel exige atenção, cada tarefa pede método, cada dia demanda entrega. Três princípios de aparência ordinária que carregaria para cada empreendimento seguinte.

Na Escola O Pequenote, fundada ao lado da tia Beta Abrahamian, essa disciplina encontrou o afeto como interlocutor. Professora por vocação e gestora por formação, ela inaugurou um modo de cuidar da infância que sobreviveu à sua própria saída: quando o ciclo daquele projeto se completou, a mãe Teresa e Beta assumiram a continuidade com o mesmo espírito original. A excelência da fundação não se mediu pelo que ficou, mas pelo modo como continuou sem ela. Criar algo que persiste sem depender da presença de quem o criou é a marca das obras que importam.

A Era Uma Vez Festas Infantis somou outro vocabulário ao mesmo comprometimento. Num mercado que ainda operava no convencional, ela introduziu a sofisticação do detalhe manufaturado. Painéis feitos à mão, cenários que suspendiam adultos e crianças no encantamento, lembranças que as famílias guardavam anos depois: cada festa era, nas suas mãos, uma experiência com cor, ritmo e gesto próprios. O rigor aprendido nas empresas do pai encontrou, ali, a liberdade da expressão artesanal.

O reconhecimento mais consistente, porém, chegou pela cozinha. Há mais de trinta anos, Káthia prepara o kibe armênio com a pressão de mão que sua avó, Isabel, lhe ensinou: o movimento que une o trigo à carne, o tempo à tradição. O produto, eleito pela revista Veja Comer & Beber como o melhor da região em múltiplas edições, carrega a distinção de quem optou pela fidelidade ao método acima da conveniência do volume.

Hoje, aos sessenta e cinco anos, a paisagem de sua vida é contemplada a partir de um banquinho à beira da cozinha, seu refúgio sagrado de solitude. Ali, entre as plantas, os animais e o silêncio escolhido, ela processa as loucas aventuras que compõem sua história. O seu motor atual não é mais a busca por expansão, mas o café compartilhado com sua mãe, Teresa, e a inteligência vibrante de seu neto, Kepler, o presente gigante que Deus lhe concedeu. Ela observa a filha, Manuella, constituir sua própria família sob as mesmas bases de respeito e amor que recebeu, sentindo o orgulho de quem vê o ciclo se renovar com integridade. A risada, que sempre foi sua marca registrada entre os amigos, continua a ser a trilha sonora de uma alma que aprendeu a aceitar a adversidade para melhor trabalhá-la. Ela é a prova de que a verdadeira grandeza não está no acúmulo, mas na fidelidade à própria essência e na coragem de rir de si mesma enquanto se saboreia a vida.