Novembro de 2024, Recife. A contagem de votos trazia um número que noventa e dois anos de história da Ordem dos Advogados do Brasil em Pernambuco nunca haviam registrado: pela primeira vez, uma mulher tomaria a presidência. Mais de quinze mil votos. Ingrid Zanella havia chegado ao cume por uma rota que desconhecia atalhos: trajetos de ônibus pelo Recife quente, coworkings de passagem, tribunais aprendidos no balcão e um princípio repetido para si mesma enquanto o sol castigava as calçadas dos fóruns: "Nada vence o trabalho."

A raiz dessa convicção tiene endereço e nomes precisos. No centro do Recife, o ambiente doméstico funcionou como laboratório de autonomia conduzido por mulheres que não pediam licença para existir. Sua mãe, Maria Noemia Zanella, ensinou que o olhar para o outro precisa ser desprovido de preconceito. Era um aprendizado diário sobre práticas sociais onde ajudar o próximo não era evento fortuito, mas hábito de alma. Sua avó, Yolanda Andrade Campos, era a prova física de que uma mulher pode governar a própria biografia com independência e firmeza. Mas foi a tia-avó, Adalgisa Andrade, quem plantou o vetor definitivo: primeira advogada da família, professora e primeira presidente de um sindicato de docentes em Pernambuco, Adalgisa demonstrou que a erudição só tem serventia quando se converte em ferramenta de combate e ensino. A jovem observadora compreendeu que a sabedoria que se guarda, apodrece.

No pátio do Colégio Salesiano, a vocação já operava antes de ter nome. Enquanto outras crianças se perdiam no lúdico, Ingrid se ocupava na defesa das colegas, buscando proporcionalidade onde a reclamação era desmedida. A universidade veio como formalização de um veredito assinado na infância. O percurso acadêmico, porém, tomou um desvio que acabou sendo a virada mais precisa de toda a trajetória: ao trancar o curso para trabalhar como tripulante em um navio de cruzeiro, a futura presidente da Ordem não buscou o lazer. Buscou a imersão na logística do desconhecido. O mar, com seu rigor e suas leis próprias, revelou-se mestre austero. Naquela imensidão salgada, entre a disciplina da navegação e a cadência das ondas, descobriu um universo que pulsava de forma distinta do que imaginara. Ao desembarcar, a decisão estava tomada: o Direito Marítimo seria seu porto seguro intelectual. O mestrado na UFPE sobre o Tribunal Marítimo converteu a vivência em autoridade científica, conferindo ao estado uma voz qualificada em um nicho de alta complexidade.

O início na militância exigiu a humildade dos que não herdam o caminho pronto. Sem linhagem jurídica prévia ou apadrinhamentos políticos, a advogada conquistou cada metro de sua influência pela tenacidade. Os longos trajetos de ônibus pela metrópole recifense serviam como tempo de reflexão produtiva: entre o sacolejo do veículo e o calor do trajeto, ela desenhava mentalmente a transformação que desejava operar. O trabalho em coworkings lapidou nela a consciência de que a colaboração supera a disputa solitária. A privação inicial não foi impedimento: foi mola. Esse acúmulo diário a levou à OAB Pernambuco, onde propôs a criação da Comissão de Direito Marítimo e Portuário, enxergando um nicho ignorado e transformando-o em referência nacional. A ascensão foi gradual e orgânica: de presidente de comissão à diretoria acadêmica da ESA-PE, chegando à vice-presidência em duas gestões consecutivas. Cada cargo ocupado foi exercício de lealdade às bases e transparência nos processos.

Como única figura do Nordeste a ocupar o assento de juíza suplente no Tribunal Marítimo e autora de obras que fundamentam o setor, Ingrid Zanella conferiu ao estado uma autoridade científica antes ausente no mapa jurídico nacional. Sua gestão à frente da OAB-PE não gere processos: protege destinos. Não apenas ocupa o topo: sustenta a base. Quem aprendeu a ouvir o sertão e a capital, a entender que a advocacia é um organismo que exige coesão para prosperar, sabe que o cargo maior é, também, o maior dever de serviço. O percurso que começou na defesa das colegas no Salesiano e atravessou águas internacionais estabiliza-se hoje na missão de fortalecer cada advogado e advogada que acredita no trabalho como a única ponte segura para a dignidade. Quem aprendeu essa cadência, trabalha, entrega e avança, não a perde mais.